Nesta aula
Quem usa IA sem saber onde ela erra acaba pagando o erro em dobro.
Trabalho com software há 15 anos e com IA aplicada há 5. Nesse tempo vi dono de loja mandar e-mail com dado inventado, contador copiar um cálculo errado e clínica publicar um texto com uma informação que a IA simplesmente criou. Nenhum deles era descuidado. Todos confiaram numa resposta que parecia certa. Esta primeira aula existe para que isso não aconteça com você. Antes de aprender a pedir bem, você precisa saber o que dá para pedir.
- Ao final, você vai saber explicar em uma frase o que um assistente de IA realmente faz.
- Vai reconhecer os quatro tipos de erro mais comuns e o hábito que evita cada um.
- Vai sair com as suas próprias tarefas classificadas em três baldes: delego à IA, faço com IA, faço sozinho.
O que você precisa ter para fazer este curso
Pouca coisa. Um navegador, um e-mail e uma conta gratuita em pelo menos um dos três assistentes que vamos usar: Claude, ChatGPT ou Gemini. Os três têm versão gratuita suficiente para todas as práticas. Não vou eleger um deles. Ao longo do curso você vai ver que os métodos funcionam nos três, e que vale a pena ter conta em dois para comparar respostas quando o assunto for importante.
Você não precisa instalar nada no computador. Tudo acontece na página do assistente. Se alguém pedir para você baixar um programa, uma extensão ou um aplicativo "para liberar a IA", desconfie. O acesso oficial é pelo site de cada um, e o cadastro é feito só com o e-mail.
Também recomendo um documento simples, no Google Documentos, Word ou Notion, chamado Meu curso de IA. É lá que você vai guardar as práticas de cada aula. No fim do curso, esse documento vira o seu kit de trabalho.
Dica
Se você trabalha numa empresa que já tem conta corporativa em algum assistente, use a conta da empresa para tarefas do trabalho. Na aula 02 e na aula 13 eu explico o porquê. Por enquanto, a regra simples: dado da empresa fica na conta da empresa.
Em uma frase: o que esse assistente faz
Um assistente de IA como os três que citei é um programa que aprendeu, lendo uma quantidade enorme de texto, a prever qual é a continuação mais provável de qualquer trecho. Quando você escreve um pedido, ele não procura a resposta num arquivo de verdades. Ele produz, palavra por palavra, o texto que mais combina com o que você escreveu e com tudo o que ele leu.
Isso explica por que ele é tão bom em escrever, resumir e reorganizar. Também explica o defeito principal: ele produz o texto mais provável, não o texto mais verdadeiro. Se a resposta mais provável para "qual é o CNAE de uma padaria" for um número que parece um CNAE, ele entrega um número que parece um CNAE. Às vezes o certo. Às vezes não. E nos dois casos com a mesma cara de certeza.
Três coisas que ele não faz sozinho
- Não conhece o seu negócio. Ele não sabe quantos funcionários você tem, qual é o seu tom com cliente nem o que aconteceu na reunião de ontem. Tudo o que ele sabe do seu contexto é o que você escreveu na conversa (ou configurou nas instruções, tema da aula 02).
- Não vê o mundo de hoje por padrão. Alguns assistentes têm busca na internet, e quando ela está ligada as respostas sobre fatos recentes melhoram. Mas a busca precisa estar ativa, e mesmo assim a fonte tem que ser conferida. Sem busca, ele responde com o que aprendeu até a data de treinamento.
- Não é responsável pelo resultado. Quem assina o e-mail, o contrato ou o post é você. A IA não vai ao Procon nem responde ao cliente que se sentiu enganado.
Exemplo real
Uma imobiliária pediu à IA "as regras atuais para reajuste de aluguel". A resposta veio com um índice, um percentual e uma "lei recente" que não existia com aquele número. Quem leu não conferiu, porque a resposta veio organizada, com parágrafos e tom de especialista. O texto quase foi para os inquilinos. O erro não foi usar IA; foi tratar uma previsão de texto como se fosse uma consulta ao Diário Oficial.
O que a IA faz bem
Aqui está a parte boa, e ela é grande. Nas tarefas abaixo a IA entrega um resultado útil na primeira tentativa na maioria das vezes, e você só precisa revisar.
Rascunhar
Primeira versão de e-mail, mensagem, proposta, post, descrição de produto. Você começa com 80% pronto em vez de folha em branco.
Resumir
Transformar um documento de 20 páginas em uma página com os pontos que importam para a sua decisão.
Reorganizar
Pegar anotações soltas, uma lista bagunçada ou uma transcrição e devolver tudo em ordem, com títulos e responsáveis.
Mudar o tom
Deixar uma cobrança mais cordial, uma resposta mais curta, um aviso mais claro, sem perder o conteúdo.
Explicar
Traduzir um termo técnico, uma cláusula ou uma fórmula de planilha para linguagem simples, no seu ritmo, sem julgar a pergunta.
Listar opções
Dar 10 caminhos para você escolher 1: nomes, abordagens, perguntas para uma entrevista, estrutura de apresentação.
Repare no padrão. Em todas elas, ou o material de origem veio de você (resumir, reorganizar, mudar o tom), ou o resultado é criativo e você é o juiz (rascunhar, listar opções). Não há fato novo a ser inventado, ou, se há, você está olhando.
Exemplo real
Um escritório contábil recebia anotações de reunião com clientes por áudio transcrito, um bloco de texto sem pontuação. Passou a colar a transcrição (sem nomes e sem CNPJ) pedindo "organize em decisões, pendências e responsáveis". O que levava 25 minutos de digitação virou 5 minutos de revisão. A informação já estava lá; a IA só organizou.
O que a IA faz mal: os quatro erros que você vai encontrar
Não são defeitos raros. Você vai vê-los na primeira semana de uso. O importante é reconhecer a cara de cada um.
1. Invenção de fatos
É o mais perigoso. Números de lei, nomes de pessoas, datas, estatísticas, citações, links, preços, títulos de livros. A IA produz o dado que "cabe" na frase. O nome técnico é alucinação, mas eu prefiro chamar de invenção, porque é isso que é. O sinal de alerta: quanto mais específico e menos verificável o dado, mais desconfie.
2. Contas e lógica longa
Somar uma lista de 40 valores, calcular juros compostos, aplicar uma regra com cinco exceções. A IA acerta muitas vezes e erra em silêncio nas outras. Para número, use planilha, e use a IA para explicar a fórmula (aula 07). Quando o assistente tiver um recurso de executar código ou análise de dados, ele melhora, mas a conferência continua sendo sua.
3. Contexto que ela não tem
Você pergunta "qual é o melhor horário para postar" e ela responde com uma regra genérica. O melhor horário para a sua padaria depende do seu bairro e do seu público, e ela não sabe nada disso a não ser que você conte. Resposta genérica não é erro do modelo; é falta de contexto no pedido. É o tema da aula 03.
4. Concordância excessiva
Se você escreve "essa ideia é ótima, né?", ela tende a concordar. Se você pede "me convença de que devo abrir uma segunda loja", ela convence. Ela segue a direção do pedido. Para uma opinião útil, peça o contrário: "liste os três maiores riscos desse plano" ou "o que um consultor cético diria disso".
Cuidado
A resposta errada e a resposta certa chegam com o mesmo tom, a mesma formatação e a mesma confiança. Não existe "cara de errado". Por isso a verificação não pode depender da sua sensação de que "pareceu certo".
Quando confiar: a régua de três perguntas
Antes de usar qualquer resposta, faço três perguntas. Levam dez segundos e decidem quanto tempo de conferência a resposta merece.
| Pergunta | Se a resposta for sim | Se a resposta for não |
|---|---|---|
| É criação ou é fato? (a resposta afirma algo sobre o mundo?) | Fato: confira na fonte antes de usar. | Criação (texto, ideia, estrutura): revise só o tom e o sentido. |
| Consigo conferir rápido? | Confira. Se leva menos de dois minutos, não há desculpa. | Trate como hipótese. Não publique nem decida com base nela. |
| O custo do erro é alto? (dinheiro, saúde, lei, reputação) | Duas conferências, ou pergunte a um profissional. | Use, observe, corrija se precisar. |
Um exemplo com a régua. Uma clínica pede à IA um texto para o Instagram sobre a importância de check-up anual. É criação, mas contém fatos (por exemplo, "a cada X anos"). Então: o texto em si, revise o tom. Os fatos citados, confira com o médico da casa ou remova. Custo do erro: reputação e saúde, alto. Resultado: o texto sai, mas sem número que ninguém conferiu.
A forma mais barata de reduzir a invenção
Dê o material. Se a resposta precisa sair de um documento, cole o documento (ou a parte dele que pode ser colada, tema da aula 13) e escreva o pedido assim:
Três coisas nesse pedido cortam a invenção: "somente o texto abaixo", "cite o trecho exato" e "se não constar, diga que não consta". A IA ainda pode errar, mas agora o erro fica visível, porque você compara o trecho citado com o original.
Os três baldes: delego, faço com IA, faço sozinho
Toda tarefa do seu dia cabe num de três baldes. Usar IA bem é, em boa parte, colocar cada tarefa no balde certo.
Delego à IA
Ela faz, eu confiro em 1 minuto. Custo do erro baixo, material vem de mim. Exemplos: reorganizar anotações, primeira versão de resposta padrão, resumo de um texto que eu já li por cima, lista de ideias.
Faço com IA
Trabalhamos juntos, eu decido cada parte. Custo do erro médio, ou envolve fato. Exemplos: proposta comercial, resposta a reclamação, explicação de cláusula, fórmula de planilha (ela explica, eu testo).
Faço sozinho
Ela pode até ajudar a pensar, mas a tarefa é minha. Decisão sobre pessoas, negociação sensível, tudo que envolve dado que não pode sair da empresa, tudo que exige que eu assine e responda.
Um dono de oficina mecânica que fez esse exercício comigo chegou nisto: orçamento por escrito para o cliente, faço com IA (ela redige, ele confere peça e valor); mensagem de "seu carro está pronto", delego; avaliação de um mecânico novo no fim da experiência, faço sozinho; lembrete de revisão a cada seis meses, delego; resposta para um cliente que reclamou de um serviço, faço com IA, porque o tom importa e ele conhece a história. Repare que "faço sozinho" não quer dizer "sem IA"; quer dizer que a decisão e a responsabilidade não saem da mão dele.
Dica
Tarefas migram de balde com o tempo. O que hoje você faz com IA, depois de dez repetições bem-sucedidas, pode virar "delego". O contrário também vale: um erro sério manda a tarefa de volta para "faço com IA". A classificação é viva.
Prática · 10 min
Classifique 5 tarefas do seu próprio dia
- Abra o documento Meu curso de IA (ou crie agora) e escreva o título "Aula 01: meus três baldes".
- Liste 5 tarefas que você fez ontem ou faz toda semana e que envolvem texto, números ou informação. Seja concreto: "responder o WhatsApp de orçamento", não "atendimento".
- Para cada tarefa, responda às três perguntas da régua: é criação ou fato? consigo conferir rápido? o custo do erro é alto?
- Com as respostas, coloque cada tarefa num balde: delego à IA, faço com IA ou faço sozinho. Escreva ao lado o motivo em até 10 palavras.
- Escolha a tarefa mais simples do balde "delego" e abra o assistente. Cole o material (sem dado de cliente) e peça a primeira versão. Compare com o que você faria.
- Anote embaixo da lista: o que a IA acertou, o que errou e quanto tempo você levaria sem ela.
Resumo da aula
- Um assistente de IA prevê o texto mais provável. Não consulta a verdade, não conhece o seu negócio e não responde pelo resultado.
- Ele é ótimo em rascunhar, resumir, reorganizar, mudar o tom, explicar e listar opções: tarefas em que o material vem de você ou em que você é o juiz.
- Os quatro erros de sempre: invenção de fatos, contas longas, falta de contexto e concordância excessiva. Todos chegam com cara de certo.
- Régua de três perguntas: é criação ou fato? consigo conferir rápido? o custo do erro é alto?
- Para cortar invenção, dê o material e peça "somente o texto abaixo, cite o trecho, diga se não consta".
- Toda tarefa cabe num balde: delego à IA, faço com IA, faço sozinho. A classificação muda com a experiência.
Quiz da aula
Quatro perguntas para fixar. A melhor nota fica guardada para o certificado.
Isaque Victor cursos gratuitos