Nesta aula
"É local, então a LGPD não se aplica" é a segunda frase mais perigosa deste curso.
Eu não sou advogado, e esta aula não substitui um. O que eu posso fazer é traduzir a lei para a linguagem de quem toca um negócio, e mostrar onde a IA local se encaixa. A boa notícia: rodar a IA dentro simplifica uma parte importante (o dado não vai para terceiro). A notícia realista: o resto continua valendo, e governança é o que transforma "a gente toma cuidado" em algo que se prova. No fim desta aula você escreve uma política de uso de uma página, que é o documento que a sua empresa mostra quando alguém perguntar "como vocês usam IA com os meus dados?".
- Ao final, você vai entender os conceitos da LGPD que importam para a IA local, em português claro.
- Vai saber montar uma trilha de auditoria, decidir o que registrar, por quanto tempo, e como atender um pedido de exclusão.
- Vai sair com um entregável: a política de uso da IA local, em uma página, pronta para revisão de quem responde pela LGPD.
A LGPD em seis ideias
A Lei Geral de Proteção de Dados é longa, mas o que você precisa para a IA local cabe em seis ideias.
- Dado pessoal é qualquer informação que identifica ou pode identificar uma pessoa: nome, CPF, e-mail, telefone, placa, foto, até um número de matrícula. Dado sensível é uma categoria à parte, com proteção maior: saúde, biometria, origem racial, religião, opinião política, vida sexual, entre outros. Clínica lida com dado sensível o dia inteiro.
- Tratamento é qualquer coisa que se faz com o dado: coletar, guardar, ler, resumir, classificar, apagar. Passar um prontuário pela IA é tratamento. Guardar a conversa no histórico é tratamento.
- Finalidade e necessidade. Todo tratamento precisa de um propósito claro e usa só o dado necessário para ele. É o princípio que a aula 8 aplicou: a IA que responde sobre procedimentos não precisa da lista de clientes.
- Base legal. Cada tratamento precisa de uma justificativa prevista na lei. As mais comuns numa empresa pequena: execução de contrato (você processa o dado do cliente para prestar o serviço que ele contratou), obrigação legal (a contabilidade guarda a folha porque a lei manda), legítimo interesse (com ponderação) e consentimento (que é o mais frágil, porque pode ser retirado). Para dado sensível, as bases são mais restritas. A regra prática: a IA local usa a mesma base legal do tratamento original. Se a clínica pode ler o prontuário para atender o paciente, pode resumi-lo com IA para o mesmo fim. Não pode usá-lo para outra coisa.
- Direitos do titular. A pessoa pode pedir para saber o que você tem, corrigir, e, em vários casos, apagar. A sua governança precisa conseguir atender.
- Segurança e responsabilidade. A lei exige medidas de segurança e prestação de contas. Quem decide sobre o tratamento (a empresa) é o controlador e responde por ele. Há a figura do encarregado, a pessoa que faz a ponte com os titulares e com a autoridade (a ANPD). Em empresa pequena, costuma ser um sócio ou o responsável pela TI, com apoio jurídico.
Dica
Se a sua empresa já tem um registro das operações de tratamento (a lista do que faz com dado pessoal e por quê), a IA local entra como mais uma linha: finalidade, base legal, dados envolvidos, quem acessa, retenção. Se não tem, esta aula é uma boa desculpa para começar por ela.
Onde a IA local se encaixa
O Radar de setembro resume a vantagem: o que não sai da sua rede não vira transferência para terceiro, e isso simplifica obrigações legais. Na nuvem, você precisa avaliar o fornecedor, o contrato, onde os servidores ficam, o que ele faz com o dado. Na IA local, essa parte desaparece. O que não desaparece:
Continua igual
Finalidade, necessidade, base legal, direitos do titular, segurança. A IA é uma ferramenta de tratamento como a planilha ou o sistema de gestão.
Fica mais simples
Sem transferência internacional, sem operador externo para o modelo, sem cláusula de "o fornecedor pode usar seus dados para treinar".
Fica mais seu
A segurança, a trilha de auditoria e a retenção passam a ser responsabilidade sua, sem o guarda-chuva do fornecedor. Governança própria é vantagem e obrigação.
Dois cuidados específicos da IA. Primeiro, a saída também é dado: um resumo de prontuário gerado pela IA é dado sensível tanto quanto o prontuário. Segundo, a IA pode inventar dado pessoal: se ela "lembrar" um diagnóstico que não estava no texto, isso é um dado incorreto sobre uma pessoa, e você é responsável por ele. Por isso a instrução de "não inventar" e a exigência de fonte não são só qualidade: são conformidade.
Exemplo real
Um escritório contábil usava a IA local para conferir a folha de pagamento das empresas clientes. Base legal: obrigação legal e execução do contrato com o cliente, a mesma do serviço contábil. A política definiu: só a equipe de departamento pessoal acessa a coleção da folha; o histórico dessas conversas é apagado ao fim de cada mês, depois do fechamento; nenhuma conversa da folha sai da interface (nada de copiar para o e-mail). Quando um cliente pediu para saber "como vocês usam IA com os dados dos meus funcionários?", o escritório mandou a política de uma página. A pergunta virou confiança.
Trilha de auditoria: o que registrar e o que não registrar
Trilha de auditoria é o registro de quem fez o quê, quando. Ela existe para duas coisas: investigar um incidente (alguém acessou o que não devia? a IA respondeu algo errado a um cliente?) e provar que as regras foram seguidas. Ela não existe para vigiar a produtividade de ninguém; usar assim quebra a confiança da equipe e cria um problema jurídico novo.
O que registrar
- Quem (a conta), quando (data e hora), qual modelo, qual coleção foi consultada.
- Ações administrativas: criação e desativação de contas, mudança de permissões, mudança de instruções fixas, envio e remoção de documentos.
- Falhas e incidentes: o que aconteceu, quem tratou, o que mudou depois (aula 13).
O dilema do conteúdo
A interface guarda o histórico das conversas, que é útil para a pessoa retomar o trabalho e para investigar um erro. Mas o histórico contém o conteúdo, e conteúdo contém dado pessoal. Então ele é, ao mesmo tempo, trilha de auditoria e dado a proteger. A solução não é "não guardar" (perde-se a auditoria) nem "guardar para sempre" (viola a necessidade). É: guardar por um prazo definido, com acesso restrito, e apagar quando o prazo vence.
Retenção e exclusão
| O que | Retenção sugerida | Quem acessa |
|---|---|---|
| Histórico de conversas | Um prazo curto e fixo, definido na política (semanas ou poucos meses, conforme a tarefa) | A própria pessoa e o administrador, com justificativa |
| Registro de quem usou o quê (sem conteúdo) | Prazo mais longo, alinhado ao restante da governança da empresa | Administrador e encarregado |
| Documentos das coleções | Enquanto vigentes; versão velha sai quando a nova entra | Conforme a sensibilidade (aula 8) |
| Backups | Ciclo definido; backup antigo é apagado, não acumulado | Só o responsável |
Quando um titular pede exclusão, o dado dele pode estar em três lugares: coleção, histórico e backup. A política precisa dizer como se localiza e se apaga em cada um, e em quanto tempo. É por isso que retenção curta ajuda: quanto menos você guarda, menos você precisa achar.
Cuidado
Os prazos exatos dependem da sua atividade, das obrigações legais do setor e da orientação de quem responde pela LGPD na empresa. Não copie prazo de outra empresa. Defina, escreva, cumpra e revise.
A política de uso de uma página
Política de IA que ninguém lê não existe. Uma página, dez itens, linguagem de gente. Este é o esqueleto que eu uso; cada item vira uma ou duas frases.
- Para que usamos a IA local. As tarefas, da tabela da aula 1.
- Com quais dados e com qual base legal. Uma linha por tarefa que envolve dado pessoal.
- O que pode ser colado. Dado interno e de clientes, dentro da finalidade de cada tarefa.
- O que não pode. Senhas e credenciais; dado de terceiros sem necessidade; documentos sigilosos fora da coleção autorizada; nada de copiar resposta com dado pessoal para canais externos.
- Quem acessa o quê. Contas individuais; coleções por nível; ex-funcionário desativado no dia.
- Como conferimos. Resposta com fonte; nada com dado de cliente sai sem revisão humana.
- O que registramos e por quanto tempo. Trilha e histórico, com prazos.
- Como atendemos pedidos de titulares. Quem recebe, onde procura, em quanto tempo responde.
- O que fazer se algo der errado. A quem avisar, em quanto tempo (aula 13).
- Quem responde por isso. Nome da pessoa responsável e do encarregado, e a data da próxima revisão.
Você pode rascunhar com a própria IA local (o esqueleto não tem dado pessoal, mas as tarefas são da sua empresa, e a IA local sabe delas pela coleção):
O rascunho sai em um minuto. A revisão de quem responde pela LGPD (ou de um advogado) é o que dá validade. Não pule essa etapa: a IA rascunha, a pessoa assina.
Prática · 10 min
Escreva a política de uso da IA local em uma página
- Pegue a tabela da aula 1 e o inventário da aula 8. Eles preenchem os itens 1, 2, 3 e 5.
- Defina os prazos de retenção do histórico e do registro de uso, mesmo que provisórios, e marque como "a confirmar".
- Rode o pedido desta aula na IA local (ou escreva você mesmo) e obtenha o rascunho dos 10 itens.
- Leia cada item em voz alta e corte o que uma pessoa da recepção não entenderia. Uma página, sem exceção.
- Preencha os colchetes: nomes, prazos, canal de aviso. Onde não souber, deixe "[confirmar]".
- Envie para quem responde pela LGPD na empresa (ou para um advogado) com uma pergunta clara: "o que está errado ou faltando?".
Resumo da aula
- Seis ideias: dado pessoal e sensível, tratamento, finalidade e necessidade, base legal, direitos do titular, segurança e responsabilidade.
- IA local elimina a transferência a terceiro; o resto continua. A IA usa a mesma base legal do tratamento original.
- A saída da IA também é dado, e dado inventado sobre uma pessoa é dado incorreto sob a sua responsabilidade.
- Trilha de auditoria: quem, quando, modelo, coleção, ações administrativas. Para incidente e prestação de contas, não para vigilância.
- Histórico com conteúdo: prazo definido, acesso restrito, exclusão no vencimento ou a pedido, inclusive em backups.
- Política de uma página, dez itens, linguagem de gente, revisada por quem responde pela LGPD.
Quiz da aula
Quatro perguntas para fixar. A melhor nota fica guardada para o certificado.
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