Nesta aula
A IA local é exatamente tão segura quanto a máquina e a rede onde ela mora.
Até aqui a IA rodou no seu computador ou num desktop da sala. Para virar coisa de empresa, ela precisa de um lugar definido na rede, de regras de quem entra e por onde, e de um plano para quando a máquina morrer. Nada disso exige um data center. Exige um desenho, feito antes, numa folha. Nesta aula eu te mostro o desenho básico, as decisões de acesso, quando (e como) isolar da internet, e o que precisa de backup. No fim, você desenha o seu.
- Ao final, você vai saber onde cada peça fica na rede e por que o Ollama nunca fica exposto diretamente.
- Vai decidir como a equipe acessa, de dentro e de fora, sem abrir a máquina para a internet.
- Vai sair com um entregável: o desenho do seu ambiente, com máquina, rede, acessos, isolamento e backups.
O desenho básico
Um ambiente de IA local para uma empresa pequena ou média tem quatro elementos. Vou descrever como se estivesse desenhando num quadro.
- A máquina servidora. Um computador que fica ligado no horário de trabalho (ou sempre), dimensionado na aula 3, numa sala que não é a recepção. Nela rodam o Ollama e a interface.
- O Ollama, em localhost. Por padrão, ele escuta só em
localhost:11434, ou seja, só aceita pedidos vindos da própria máquina. Isso é bom e deve ficar assim. No momento em que escrevo, o Ollama não pede senha; a proteção dele é justamente não estar alcançável de fora. - A interface (Open WebUI), na rede interna. É ela que a equipe alcança pelo navegador, com conta e senha. Ela fala com o Ollama por dentro da máquina. É a única porta que fica aberta, e só para a rede interna.
- As pessoas, com contas individuais, em computadores da empresa, na mesma rede.
A regra que resume o desenho: o modelo fica atrás da interface; a interface fica atrás da rede interna; a rede interna fica atrás do firewall. Três camadas, cada uma com uma porta.
Se um sistema precisa falar direto com o Ollama
Na aula 12 você vai integrar sistemas com a API do Ollama. Se o sistema roda na mesma máquina, nada muda: ele usa localhost. Se roda em outra máquina da rede, aí sim o Ollama precisaria escutar na rede (existe uma configuração para isso, por variável de ambiente), e nesse caso a regra é: só com o firewall da máquina limitando quais endereços podem falar com ele, nunca aberto para a rede inteira, nunca para a internet. Se isso parece complicado, é porque é. A alternativa mais simples costuma ser rodar a integração na mesma máquina.
Cuidado
Existe um erro que aparece em quase toda auditoria: alguém "abriu" o Ollama para a rede para testar uma integração e esqueceu. Meses depois, qualquer computador da empresa (inclusive um infectado) consegue usar o modelo à vontade e, dependendo da configuração, ler o que ele lê. Se abriu, feche. Se precisa aberto, limite por endereço e anote no desenho.
Quem entra, e por onde
Acesso é onde a maioria das empresas pequenas erra, não por ignorância, mas por pressa: "abre aí para eu acessar de casa". Estas são as regras que eu não negocio.
| Regra | O que fazer | O que nunca fazer |
|---|---|---|
| Conta por pessoa | Cada um com login próprio na interface; ex-funcionário desativado no dia da saída | Conta "recepção" usada por cinco pessoas |
| Senha forte e gerenciador | Senhas longas, únicas, guardadas num gerenciador; segundo fator onde a ferramenta suportar | Senha da IA igual à do e-mail |
| Acesso remoto só por VPN | Quem trabalha de fora entra na VPN da empresa e usa o mesmo endereço interno | "Abrir a porta" no roteador para a internet |
| Rede separada | A máquina da IA numa rede diferente da rede de visitantes (o Wi-Fi que o cliente da padaria usa) | IA e Wi-Fi público no mesmo segmento |
| Acesso à máquina | Só a pessoa responsável tem login no servidor; os outros usam a interface | Todo mundo com acesso remoto ao servidor "para facilitar" |
| Criptografia interna | Quando possível, a interface com certificado (HTTPS) mesmo dentro da rede | Senhas trafegando em texto puro pela rede |
A VPN merece uma linha a mais. Ela cria um túnel entre o computador de fora e a rede da empresa, de modo que, para a interface, a pessoa parece estar dentro. Muitos roteadores de empresa e serviços de rede oferecem isso; quem cuida da sua rede sabe configurar. O que a VPN preserva é a regra de ouro: a interface nunca fica alcançável da internet. Abrir uma porta no roteador quebra essa regra, e a partir daí a segurança da sua IA vira a segurança da senha de cada pessoa contra o mundo inteiro.
Exemplo real
Um escritório de advocacia queria que os sócios acessassem a IA do tribunal, pelo celular. A primeira proposta foi abrir a interface na internet com senha. A que ficou foi VPN no celular dos sócios, configurada uma vez. Do lado de fora, o endereço da IA não existe; do lado de dentro, funciona igual à mesa do escritório.
Ambiente isolado: quando desligar a internet, e como
Alguns casos pedem mais do que rede interna: pedem uma máquina sem nenhuma conexão com a internet. É o que os guias chamam de ambiente isolado, e o Radar de setembro lembra que ele existe para operações que não podem depender de conexão nem expor nada.
Quando faz sentido
- Dado extremamente sensível: saúde identificada em volume, segredo industrial, processo judicial sigiloso.
- Exigência contratual ou regulatória de um cliente ou setor.
- Operação em campo ou em local sem conexão confiável: uma equipe de engenharia numa obra, um consultório em cidade pequena.
Como funciona na prática
O Ollama só precisa de internet para baixar modelos. Então o roteiro é: numa máquina com internet, baixe todos os modelos que vai usar (ollama pull de cada um), instale a interface e as ferramentas, teste tudo. Depois, desconecte: cabo fora, Wi-Fi desligado, e, se for sério, a placa de rede desativada. Dali em diante, a máquina responde sem falar com ninguém. Atualizações de modelo e de programa passam a ser manuais: baixar em outra máquina, verificar, transportar por mídia física, com uma regra de quarentena (a mídia é verificada antes de entrar). É trabalho. Por isso isolamento é escolha, não padrão.
O híbrido também vale aqui: uma máquina isolada para o processo sensível e a IA normal, na rede interna, para o resto. A tabela da aula 1 diz qual tarefa vai para qual máquina.
Dica
Antes de decidir por isolamento total, teste o "isolamento de uma semana": desligue a internet da máquina da IA por sete dias e veja o que quebra. Se nada quebrou, você já sabe que a operação sobrevive. Se quebrou, você descobriu uma dependência que precisava conhecer de qualquer jeito.
Backups: o que salvar e como provar que funciona
Máquina quebra. Disco morre. Alguém apaga a pasta errada. O que você faz hoje define se isso vira um contratempo de uma tarde ou um mês perdido.
O que precisa de backup
- Os documentos originais das coleções (aula 8), com o inventário.
- A configuração e o banco da interface: usuários, permissões, coleções indexadas, histórico de conversas. A documentação do Open WebUI diz onde esses dados ficam; anote no desenho.
- As instruções fixas, num arquivo de texto, com versão e data.
- A bateria de testes e os resultados (aula 6).
- Os modelos, só em ambiente isolado. Com internet, eles se baixam de novo. Sem internet, a cópia do modelo é a única forma de recuperar.
Como
A regra clássica, que continua boa: três cópias, em dois tipos de mídia diferentes, uma delas fora do prédio. Para uma empresa pequena, isso é: a máquina, um disco externo, e uma cópia criptografada num armazenamento fora (que pode ser nuvem, desde que criptografada antes de sair, porque backup também é dado). Frequência: os documentos e o histórico mudam todo dia, então diário; instruções e testes, a cada mudança.
E a parte que quase ninguém faz: teste a restauração. Backup que nunca foi restaurado é uma esperança, não um backup. Uma vez por trimestre, restaure numa pasta separada e abra um documento e a lista de usuários. Se abriu, está valendo.
O desenho do seu ambiente
Você pode pedir a um assistente de nuvem para revisar o desenho, sem colocar endereços reais nem nomes de máquinas:
"Não sugira produtos; sugira verificações" evita a resposta genérica de catálogo e traz o que interessa: as perguntas que você leva para quem cuida da rede.
Prática · 10 min
Desenhe o ambiente da sua IA local
- Numa folha ou documento, desenhe (ou liste) a máquina servidora: onde fica fisicamente, quem tem login nela, se fica ligada sempre.
- Marque o Ollama em localhost e a interface na rede interna. Anote se alguma integração vai precisar falar com o Ollama de outra máquina e, se sim, escreva "limitar por endereço no firewall".
- Liste quem acessa e por onde: pessoas de dentro (rede interna), pessoas de fora (VPN), e o que fica proibido (porta aberta na internet).
- Marque a separação de redes: a máquina da IA está na mesma rede do Wi-Fi de visitantes? Se sim, anote como pendência.
- Decida: isolado ou não? Se sim, para qual processo, e como as atualizações vão entrar.
- Liste os backups: o que, com que frequência, onde ficam as três cópias, e a data do próximo teste de restauração.
Resumo da aula
- Três camadas: o modelo atrás da interface, a interface atrás da rede interna, a rede atrás do firewall.
- O Ollama fica em localhost. Não pede senha por padrão; se precisar abrir para a rede, limite por endereço e anote.
- Conta por pessoa, senha forte com gerenciador, acesso remoto só por VPN, rede da IA separada da de visitantes.
- Ambiente isolado é escolha para dado extremo, exigência contratual ou operação sem conexão; atualizações viram trabalho manual.
- Backup: documentos, configuração e histórico da interface, instruções, bateria. Modelos só em ambiente isolado.
- Três cópias, duas mídias, uma fora, criptografada. E teste a restauração a cada trimestre.
Quiz da aula
Quatro perguntas para fixar. A melhor nota fica guardada para o certificado.
Isaque Victor cursos gratuitos