Nesta aula
Todo agente é feito das mesmas seis peças. Quem conhece as peças sabe onde mexer quando algo dá errado.
Na aula passada você desenhou o ciclo de um agente. Agora vamos abrir a máquina. Independente da plataforma (um projeto no Claude, um agente de WhatsApp, um agente no terminal), a estrutura é sempre a mesma: um modelo, instruções, ferramentas, memória, limites e um ponto de aprovação humana. Quando você entende as seis peças, deixa de depender de quem vende a ferramenta e passa a avaliar qualquer agente com os próprios olhos.
- Ao final, você vai saber nomear as seis peças de um agente e o que cada uma faz.
- Vai entender qual peça mexer quando o agente responde errado, faz coisa demais ou faz de menos.
- Vai sair com um entregável: a ficha do seu agente preenchida, campo por campo.
Modelo e instruções: o cérebro e o combinado
Modelo
O modelo é a inteligência de linguagem que lê, raciocina e escreve. Claude, GPT, Gemini, os modelos abertos como Llama ou Qwen. Ele não sabe nada do seu negócio e não tem intenção própria: só faz o que a estrutura ao redor manda. Escolher o modelo importa (velocidade, qualidade, custo, onde os dados ficam), mas é a peça que menos resolve problema quando o agente erra. Na minha experiência, a maior parte dos erros de agente é de instrução, ferramenta ou limite, não de modelo. Na aula 14 falamos de como escolher o modelo por tarefa.
Instruções
É o combinado por escrito. Quem o agente é, o que faz, como fala, o que nunca faz, o que fazer quando não sabe. Se você já criou instruções personalizadas no seu assistente, é isso, só que muito mais específico. Um agente de orçamento de uma oficina mecânica, por exemplo, tem instruções assim:
Repare que a instrução tem persona, tarefa, regras, comportamento em caso de dúvida e formato. A aula 6 é inteira sobre escrever isso bem. Por enquanto, guarde: instrução é a peça que você mais vai editar na vida do agente.
Dica
Escreva as instruções como se fosse treinar uma pessoa nova no primeiro dia. Se a frase não faria sentido para um funcionário novo, também não vai funcionar para o agente.
Ferramentas e memória: as mãos e o caderno
Ferramentas
Ferramenta é tudo que permite ao agente perceber ou agir fora do texto. Ler um arquivo. Buscar na internet. Consultar a agenda. Gravar uma linha na planilha. Enviar uma mensagem. Rodar um cálculo. Sem ferramenta, o agente é um assistente que escreve bonito. Com ferramenta, ele age.
Cada ferramenta é também uma porta. Uma ferramenta de leitura de agenda deixa o agente ver a agenda inteira, não só o que ele precisa. Uma ferramenta de envio de mensagem deixa o agente mandar qualquer mensagem, para qualquer pessoa. Por isso, ferramenta e limite andam juntos: você dá a ferramenta e, no mesmo movimento, diz até onde ela pode ser usada.
Exemplo real
Imobiliária, agente que responde interessados em imóveis. Ferramentas: leitura da lista de imóveis disponíveis (planilha exportada todo dia), consulta de agenda de visitas do corretor, registro de interessado na planilha de leads. Sem ferramenta de envio de proposta nem de alteração de preço. O agente informa, agenda visita e registra; o corretor fecha. Na segunda versão, meses depois, ganhou a ferramenta de enviar a ficha do imóvel em PDF. Uma porta por vez.
Memória
Memória é o que o agente lembra entre um ciclo e outro, ou entre uma conversa e outra. Existem dois tipos que importam para você. A memória da conversa: tudo que foi dito naquele atendimento. E a memória de longo prazo: fatos que o agente guarda sobre a pessoa ou o processo (o cliente prefere retirada às 18h, o pedido anterior foi de bolo sem lactose).
Memória é útil e é risco ao mesmo tempo. Útil porque o agente não pergunta a mesma coisa duas vezes. Risco porque tudo que fica guardado pode reaparecer em outra conversa ou vazar. Regra que eu sigo: guarde o mínimo necessário para o processo, defina por quanto tempo fica guardado e saiba como apagar. Dado sensível (documento, saúde, dado bancário) não entra na memória de um agente sem uma razão muito boa e sem uma pessoa responsável por isso.
Limites e aprovação humana: a cerca e o portão
Limites
Limite é o que o agente nunca faz ou onde ele para sozinho. Escopo de assunto (só orçamento de serviços, nada de vender peça). Teto de volume (no máximo 20 respostas por conversa em 5 minutos, para não entrar em laço com alguém que está testando ou atacando). Horário (silêncio entre 21h e 8h). Valor (não informa serviço acima de um teto sem chamar o dono). Limite é cerca: define o terreno onde o agente anda.
Limites parecem restrição, mas são o que permite dar autonomia. Sem cerca, você não consegue confiar; com cerca bem posta, você deixa o agente correr solto lá dentro.
Aprovação humana
Aprovação humana é o portão na cerca. São as ações que o agente prepara por completo, mas só executa depois que uma pessoa diz sim. Cancelar uma consulta. Enviar uma proposta com valor. Devolver dinheiro. Alterar um cadastro. O agente faz o trabalho (lê, calcula, escreve a mensagem) e manda para alguém aprovar, com tudo pronto. A pessoa gasta dez segundos, não dez minutos.
Na aula passada eu dei as três perguntas: é reversível? o erro custa quanto? está no escopo? Toda ação que falha em uma delas vai para o campo de aprovação humana da ficha. Não é falta de confiança na IA. É a mesma regra que você aplica a um funcionário novo: ele prepara, você assina, e com o tempo você vai assinando menos.
Cuidado
Aprovação humana só funciona se a pessoa realmente olha. Se o agente manda 40 pedidos de aprovação por dia e alguém aprova tudo sem ler, você tem um agente sem limite fingindo que tem. Quando isso acontecer, o problema não é a pessoa: é que a regra de aprovação está larga demais. Aperte o que vai para aprovação até caber na atenção real de quem aprova.
Diagnóstico: qual peça mexer quando o agente erra
A vantagem de conhecer as seis peças aparece quando algo dá errado. Em vez de "a IA é ruim", você localiza a peça. Uma tabela que uso com clientes:
| Sintoma | Peça provável | O que fazer |
|---|---|---|
| Responde errado sobre um fato da empresa | Ferramentas ou instruções | O agente tinha acesso à fonte certa? Se não, dê a ferramenta. Se sim, mande consultá-la antes de responder. |
| Fala num tom que não é o da empresa | Instruções | Persona e formato mal definidos. Adicione exemplos de resposta boa. |
| Fez algo que não devia (cancelou, prometeu) | Limites e aprovação humana | A ação estava no campo de aprovação? Se não, mova. Se sim, o portão falhou: revise quem aprova. |
| Pergunta a mesma coisa toda vez | Memória | Não há memória de longo prazo ou ela não guarda esse dado. Decida se vale guardar. |
| Inventa detalhe quando não sabe | Instruções | Falta a regra "se não souber, diga que vai confirmar". Modelos preenchem lacuna se não forem proibidos. |
| Lento ou caro demais | Modelo ou limites | Modelo maior que a tarefa pede, ou sem teto de mensagens. Aula 14. |
Perceba que o modelo aparece uma vez só. Na maioria dos casos, trocar o modelo não resolve; ajustar instrução, ferramenta ou limite resolve.
Prática · 10 min
Preencha a ficha do seu agente
- Abra um documento em branco e pegue o desenho do ciclo da aula 1. Escreva o nome do agente e a tarefa em uma frase no topo.
- Campo Modelo: escreva apenas "o do assistente que eu já uso" (Claude, ChatGPT ou Gemini). Não gaste tempo aqui hoje.
- Campo Instruções: escreva de 5 a 8 linhas com persona, tarefa, três regras e o que fazer quando não souber. Use o exemplo da oficina como molde.
- Campo Ferramentas: liste o que o agente precisa ler e o que precisa fazer, uma ferramenta por linha. Ao lado de cada uma, escreva L (só leitura) ou E (escrita ou ação).
- Campo Memória: escreva o que ele precisa lembrar entre conversas (pode ser "nada" na primeira versão) e por quanto tempo.
- Campos Limites e Aprovação humana: copie as ações marcadas I no desenho da aula 1 para Aprovação humana. Em Limites, escreva escopo de assunto, teto de mensagens por conversa e horário de funcionamento.
Resumo da aula
- Todo agente tem seis peças: modelo, instruções, ferramentas, memória, limites e aprovação humana.
- O modelo é a inteligência; as instruções são o combinado por escrito. A maioria dos erros é de instrução, não de modelo.
- Ferramentas são as mãos do agente e cada uma é uma porta: dê a ferramenta e o limite dela no mesmo movimento.
- Memória é útil e é risco: guarde o mínimo, com prazo, sem dado sensível.
- Limite é cerca (o que nunca faz, onde para); aprovação humana é portão (prepara e espera o ok).
- Quando o agente erra, localize a peça antes de culpar a IA.
Quiz da aula
Quatro perguntas para fixar. A melhor nota fica guardada para o certificado.
Isaque Victor cursos gratuitos